Amélia Inácia Medeiros Ludwig, fundadora da Apae de São José, faleceu nesta quinta

Amélia Inácia Medeiros Ludwig faleceu nesta quinta (6-6-19)
Amélia Inácia Medeiros Ludwig, ou Dona Amelinha, teve uma vida de dedicação à educação e à Apae de São José - Foto: Divulgação/CSC

Amélia Inácia Medeiros Ludwig, fundadora da Apae de São José, faleceu nesta quinta-feira (6/6), por volta das 13h. Dona Amélia ou Amelinha – como também era conhecida – tinha 86 anos e era a presidente de honra da entidade.

A Apae-SJ emitiu nota sobre o falecimento:

A Apae de São José, com muito pesar, informa o falecimento Da Sra. Amélia Inácia De Medeiros Ludwig hoje dia 06/06/2019.
Nesta data tão difícil para nós, gostaríamos de agradecer a Dona Amélia pelo seu legado e ensinamentos, de que com caráter e honestidade é possível lutar pelos direitos da pessoa com deficiência.
Desejamos a família e amigos paz e conforto.
Informamos que em função do luto não haverá atendimento no dia 07/06.
Velório e sepultamento serão na Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos em São José.

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O Correio SC entrevistou Dona Amélia em 2017 para contar sobre o seu trabalho de vida. Na ocasião, véspera de aniversário da cidade, contamos histórias de alguns personagens muito importantes em diversas áreas para a construção do município. Republicamos agora, na íntegra, a matéria veiculada originalmente em 17 de março de 2017 no jornal Correio de Santa Catarina.

Dona Amélia e o trabalho na Apae

Em quatro décadas da entidade, metade foi marcada pela dedicação de Dona Amélia

Natural do distrito de Vargem do Braço, em Santo Amaro da Imperatriz, Amélia Inácia Medeiros Ludwig (84), ou Dona Amelinha, como também é conhecida, desde pequena é uma pessoa que sempre se dedicou a cuidar do próximo. Seu trabalho e histórico de educadora, mãe e batalhadora é referência até hoje na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de São José, que ajudou a fundar e ocupou a presidência até dezembro do ano passado.

Quando criança, Amélia foi morar no São Vicente de Paulo, uma vila de idosos em Florianópolis, perto da antiga Apae e do Clube Santa Catarina. Lá, já começava o contato com a filantropia e caridade. Chegou a cuidar dos netos do governador Celso Ramos, os quais levava a pé para a escola, e depois ia ela mesmo estudar. Quando frequentou a escola Simão Hess, na Trindade, em Florianópolis, é que começou a tomar gosto por lecionar, se tornando professora posteriormente aos 19 anos. No colégio Aderbal Ramos da Silva deu aulas por vários anos para alunos que eram majoritariamente filhos de presidiários e via a realidade dura que cercava a cidade, principalmente a dificuldade dos menos favorecidos.

Quando Dona Amélia se mudou para Campos Novos, no interior do Estado, para trabalhar em outra escola, foi que conheceu o barbeiro e viúvo Agostinho Ludwig, com quem se casou e teve cinco filhos. Ficou em Campos Novos até 1970 para depois retornar à Florianópolis para morar na casa do pai com a família. Na Capital, com mais experiência no trabalho, Dona Amélia passou a sentir a repressão política da época. “Foi muita perseguição política desde 1970 até 1994, quando eu me tornei presidente da Apae”, conta Dona Amélia.

Trajetória na Apae-SJ

Ao retornar para Florianópolis para assumir a coordenação da escola Hilda Theodoro Vieira, na Trindade – ocasião que também rendeu muita repressão, incluindo disparo de arma de fogo em sua direção, na rua, que ela entendeu como uma reação à sua chegada à escola – e posteriormente trabalhar na Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE), em São José, Amélia conheceu o Dr. Álvaro José de Oliveira, um dos criadores da FCEE e mentor das Apaes no Estado. “O Dr. Álvaro foi a minha motivação para participar da Apae de São José, quando eu já trabalhava na Fundação Catarinense, onde fiquei por 15 anos no departamento pessoal. Ele me chamava constantemente porque gostava do meu trabalho”, diz ela. Em 1994, então, Dona Amélia assume a presidência da Apae de São José.

Luta diária

A partir de 1994 é que Dona Amélia teve grande projeção em São José, ao batalhar constantemente pela melhoria da entidade. A sede da época ficava em uma casa no Centro Histórico, com diversos problemas estruturais, e permanente falta de apoio. Apesar de ter sido ampliada pelos esforços de Dona Amélia, ainda era insuficiente para atender bem os estudantes. “O prefeito era o Dário Berger e eu pegava muito no pé dele para me ajudar a conseguir uma casa nova. Ele disse então para conseguir um terreno primeiro, o que ocorreu quando o Sr. Max Hablitzel nos doou o espaço aqui na Fazenda (Santo Antônio)”, conta Amelinha.

dona amelia fundadora da apae de são josé - foto lucas cervenka csc
Dona Amélia, em 2017 – Foto: Lucas Cervenka/CSC

A construção da nova sede na Fazenda Santo Antônio foi possível por dois motivos. O primeiro foi a conquista de um caminhão de produtos apreendidos pela Receita Federal, o qual Dona Amélia e o marido foram buscar pessoalmente no Paraná, carga que foi parcialmente danificada por enchente pouco antes de realizarem o bazar beneficente. O dinheiro arrecadado com a venda destes produtos deu o pontapé inicial na construção. O segundo foi a entrada de Antônio Hillesheim na entidade, empresário da construção civil que bancou o restante da construção que faltava.

“O que um tem que passar, o outro não passa. Só quem vive isso sabe o que é. Sempre fui muito perseguida, também porque o meu pai era envolvido com a política. Mas eu me sinto satisfeita com tudo que fiz”, declara Dona Amélia. Se a política lhe trouxe até hoje muitas decepções, é o desenvolvimento das centenas de alunos que passaram por suas mãos o que sempre lhe deu forças e reconhecimento. “Hoje pega-se os alunos especiais bem pequenininhos, desde a maternidade, para que possamos dar estímulo. Acho que os que crescem e se desenvolvem tem que ir pro mercado de trabalho, porque muitos são capazes”.

Atualmente a Apae de São José tem 291 alunos, sendo 254 em meio período, 39 funcionários da casa e 28 do Estado. O crescimento exponencial, incluindo a ampliação da sede com um novo ginásio, é fruto da parceria da comunidade josefense com o empenho de Dona Amélia, que hoje ocupa um cargo de honra na diretoria, e sua história está intimamente ligada às vidas de muitos cidadãos excepcionais da cidade.

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