“Eu não ia morrer sendo torturada, pulei na arma pra tentar escapar”, diz vítima de sequestro relâmpago nos Ingleses

Vítima de sequestro relâmpago conta que reagiu porque achou que seria morta de qualquer forma

Durante 1h30, Raquel Ronise Alves e uma amiga ficaram sob a ameaça de dois homens em um sequestro relâmpago ocorrido no bairro Ingleses, norte da ilha de Florianópolis, em 15 de setembro.

Ainda muito abalada com a violência pela qual passou, Raquel Pecato, como é mais conhecida, conta que, contrariando as recomendações e suas próprias crenças, tentou pular e pegar a arma de um dos bandidos – o que não resolveu a situação, fazendo com que o homem desse duas coronhadas na cabeça da mulher.

Como foi o sequestro relâmpago

Raquel e uma amiga circulavam de carro pelos Ingleses por volta de 20h45 procurando um local para comer. Quando pararam o carro na Av. das Gaivotas foram imediatamente abordadas por dois homens, que logo entraram no veículo, um deles portando uma pistola. Arrancaram Raquel do volante dizendo: “cala a boca que é sequestro, vamos levar e matar vocês”. Inicialmente, Raquel conta que já reagiu. “Porque eu fiquei com a chave do carro na mão, eu não queria entregar, ainda dei um chute na canela de um deles, mas acabaram pegando e nos colocando no banco de trás e ficaram circulando com a gente pelo bairro”.

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Raquel avalia que achava que inicialmente os bandidos as levariam para sacar dinheiro em caixa eletrônico e que logo as liberariam. Porém, talvez por ela já ter reagido, eles não se sentiram confiantes para fazer a tentativa de roubo e continuaram com elas no carro. “Eles ficaram andando com a gente e nos ameaçando, dizendo ‘mata essa loca, mano’, pra mim”, diz Raquel, porque ela não ficou em silêncio.

Com a indicação de que as duas seriam levadas para lugar afastado na região em algum morro, Raquel imaginou que as duas poderias ser torturadas, estupradas e mortas. “Aí eu pensei, não sei quantas pessoas vão estar lá, não sei o que vão fazer com a gente, se vão nos estuprar, matar. Então eu decidi que se era pra ser morta, que fosse logo, eu não ia morrer de sendo torturada”. Ela então pulou e tentou agarrar a arma de um dos homens, mas sem sucesso. Ele lhe forçou a cabeça pra baixo e desferiu duas coronhadas com a arma, o que fez um grande corte em sua cabeça e iniciou o sangramento.

Os homens então acessaram um morro na região dos Ingleses. Conversavam entre si o que podiam fazer e mandavam Raquel ficar quieta, que pedia para serem libertadas, que poderiam levar o carro e dinheiro. Sua amiga ficou inerte, apavorada, em silêncio.

Carro com problema

A mulher estava dirigindo seu carro, um Lifan X60, no caso. Porém, o carrro, conta Raquel, está com problema na embreagem e desde que foram sequestradas o bandido ficou reclamando da falha, fazendo com que não conseguisse andar rápido.

Quando tentou subir uma estrada de terra, não conseguiu e parou provavelmente antes de um local combinado. A essas alturas os homens já estavam nervosos e dizendo entre si que “pegamos as gurias erradas”.

composição de duas fotos de raquel com sangue ressacado na testa e sobre o rosto
Raquel precisou levar cinco pontos por conta de duas coronhadas que levou na cabeça – Arquivo Pessoal/Divulgação/CSC

“Acho que o carro, um SUV, atraiu a atenção deles, mas não conseguiram fazer tudo que pretendiam”, diz Raquel. Os homens, que estavam de gola balaclava e luvas, não sendo possível ver mais características físicas além de que eram grandes, saíram do carro e revistaram o que mais poderiam levar. Acabaram roubando dois celulares de Raquel e o salário de R$1.780 que ela tinha sacado momentos antes.

Elas perceberam que outro carro dava apoio e os homens, quando foram embora, entraram nesse outro veículo e se evadiram. Raquel avalia que era um modelo escuro, tipo hatch, algum carro popular.

Quando sozinhas, chorando muito, depois encontraram um dos celulares caídos no chão e conseguiram contatar a polícia. Acabaram sendo atendidas em um posto de gasolina no bairro e depois foram registrar BO na delegacia de Canasvieiras, que investiga o caso.

“Não deveria reagir”

Raquel explicou à reportagem que reagiu sem considerar o que se recomenda, que é justamente o contrário. “Se alguém me perguntasse, em uma situação ‘normal’ eu diria pra nunca reagir. A recomendação não é essa. Mas não foi normal. Eu fui impulsiva, decidi que não queria ser morta de um jeito violento. Pedíamos pra nos deixar, não nos matar, nos estuprar, mas eles nos ameaçavam”, diz ela.

Questionada sobre o que fará de diferente em sua rotina, se vai andar com alguma ferramenta de defesa pessoal, Raquel diz que ainda está muito abalada e sensível. Quando chegou em casa outro dia, após reunião à noite, ainda permaneceu por 5 minutos no veículo, pra ver o entorno. Ela acabou tento braço, olho e cotovelos machucados por conta de batidas, fora cinco pontos que precisou levar na cabeça. Sobre a atuação das polícias militar e civil, diz que estão dando bastante apoio e que foram muito bem atendidas pelos militares logo após o crime.

Por Lucas Cervenka – reportagem@correiosc.com.br

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