Governo de SC abandona programa de renováveis e escolhe gerar energia elétrica a gás

    Diante de estiagem, na qual usamos energia mais suja e cara, estado carece de uma política energética de descarbonização

    O governo de Santa Catarina praticamente não tem políticas voltadas à geração de energia utilizando fontes renováveis. Criado em 2015, o programa SC+Energia era uma promessa de incentivo e “ousadia” por parte do governo de Carlos Moisés logo no início de sua gestão, em 2019, mas está abandonado.

    Evidentemente que os leilões de energia elétrica são de atribuição do governo federal, entretanto cabe ao estado muita atuação nessa pauta, tanto que o governo de Moisés regulamentou em setembro de 2019 a isenção de impostos sobre microgeração de fonte renovável até 1MW. Fora esse degrau, pouco se subiu na escadaria das renováveis.

    Tubos em cor cinza amarelo e vermelho. A foto ilustra a reportagem sobre a intenção de Santa Catarina em investir em energia elétrica a gás natural, fonte não renovável.
    Puxada pela indústria, conversão de energia elétrica a partir da queima de gás ganha força em SC – SCGÁS/Divulgação/CSC

    Passadas as duas tentativas de deposição do governador, o cenário no âmbito energético mudou para uma gestão mais focada nos empregos, como garantir o funcionamento da termelétrica a carvão de Jorge Lacerda (e uma política que vai garantir seu funcionamento até pelo menos 2050) e o estímulo à queima de gás natural para produção de energia nas indústrias, principalmente após novos contratos aumentarem a compra do insumo boliviano.

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    Nessa semana, por exemplo, a SCGás lançou edital para um projeto piloto de geração a gás, no qual vai escolher uma empresa para emprestar por cinco anos um gerador movido a essa fonte. Dependendo do resultado, os planos da estatal são de aumentar a queima de gás para geração de energia elétrica diretamente nos grandes consumidores. Tanto para a companhia, quanto para as indústrias, a estratégia é boa, já que o gás é essencial nesse segmento econômico, porém a fonte é poluidora. É ignorado que urge a necessidade de descarbonização da matriz.

    Matriz de energia em SC

    Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que, de 1º de janeiro de 2020 a 21 de junho de 2021, a matriz energética catarinense foi abastecida em 75% por energia hidrelétrica, 22,7% por térmicas (incluindo carvão e gás), 2,3% eólica e menos de 1% de solar.

    gráfico em barras por mês mostrando geração de energia elétrica em SC no primeiro semestre de 2021 de acordo com cada fonte
    Geração de energia elétrica em SC no primeiro semestre de 2021 – Fonte: ONS

    Em comparação a outras fontes fósseis, como petróleo e carvão mineral, o gás natural é uma solução energética mais limpa e com impacto ambiental menor. Ainda assim, é uma fonte não renovável com reservas limitadas e que contribui com o agravamento do efeito estufa (aumento das temperaturas pela retenção de gases na atmosfera). O uso intenso dos combustíveis fósseis para produção de energia está relacionado diretamente com as mudanças climáticas das últimas décadas. Segundo o anuário estatístico de energia elétrica de 2020, entre 18 e 19 houve o aumento de 6,8% de emissões de gases de efeito estufa provenientes da geração de energia elétrica no Brasil, com destaque para o gás natural, com crescimento de 9,6%.

    Atualmente, Santa Catarina representa 3,7% da energia elétrica gerada no Brasil, consumindo 5,4%, de acordo com o anuário estatístico. Isso significa que o estado é deficitário em energia, já que boa parte vem de Itaipu, e para cobrir esse déficit o gás vem ganhando terreno.

    Sem se atentar ao momento ambiental crítico, o estado pouco ou quase nada debate sua matriz de geração elétrica, discussões restritas às indústrias ou raramente na comissão de Energia da Alesc. Santa Catarina não tem Conselho Estadual de Energia, como outros estados.

    Além dos impactos climáticos das fontes não renováveis, o investimento em fontes renováveis (eólica, solar, de biomassas, etc.) é necessário também por conta da dependência catarinense e brasileira na matriz hidrelétrica, uma vez que suas usinas representam de 60 a 70% da produção de energia nacionalmente. O problema dessa dependência pode ser observado agora: em meio a escassez de chuva e pior crise hídrica das últimas nove décadas, os reservatórios operam abaixo da capacidade, sendo necessário o acionamento de usinas térmicas, que geram mais impactos ambientais e são mais caras, elevando os valores das contas de luz residenciais – um dos motivos de puxar a inflação pra cima, segundo boletim econômico do governo estadual de agosto.

    Estamos usando energia mais suja e mais cara.

    Incentivo às fontes renováveis

    Por isso, pesquisadores defendem a diversificação da matriz de geração elétrica com novas fontes de energia e incentivo às renováveis. O grupo Sinergia da UFSC é um dos que aponta que o cenário de crise atual poderia ser evitado com investimentos em fontes renováveis, como a eólica, a solar e em usinas híbridas (que usam mais de uma fonte renovável). Dessa forma, seriam menores as chances de desabastecimento no futuro, mas dependem de estratégias a longo prazo, isto é, de políticas amplas sobre o tema.

    “A maior parte destas estratégias infelizmente só são possíveis no longo prazo, pois a instalação de novas usinas ou até o desenvolvimento tecnológico demora tempo e, portanto, no curto prazo, ainda estaremos vulneráveis a essas flutuações climáticas e ao regime de chuvas”, avaliam Caroline Rodrigues Vaz e Mauricio Uriona Maldonado, professores e pesquisadores do grupo Sinergia, para o portal de notícias da UFSC.

    Por Ana Ritti e Lucas Cervenka – reportagem@correiosc.com.br

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