Fauna marinha morre na Lagoa da Conceição após rompimento de lagoa de ETE

    Fauna marinha morre na Lagoa da Conceição após rompimento de lagoa - imagem aérea mostra água vazando logo após acidente
    Laboratórios da UFSC avaliam que água estocada na lagoa da estação de tratamento de esgoto não era limpa - CBM/Divulgação/CSC

    Nesta segunda-feira (25/1), houve o rompimento de lagoa de tratamento de esgoto (ETE) da Casan e pode não ser limpa. O extravasamento de cerca de 5 milhões de litros de água causou uma enxurrada em duas servidões transversais da Avenida das Rendeiras, interditou a rodovia e chegou à própria Lagoa da Conceição.

    A água que extravasou, muito provavelmente pela quantidade de chuvas em excesso nos últimos 10 dias em Florianópolis, é, em tese, água tratada e que pode voltar à natureza. Por isso, essa lagoa anexa à estação de tratamento é chamada de evapoinfiltração – ou a água evapora, ou volta para o subsolo.

    Mas, agora, imagens mostram que a fauna marinha da região está sofrendo o impacto. Um vídeo mostra que peixes e crustáceos estão morrendo na Lagoa da Conceição, ao longo da orla próximo ao ponto onde a água da lagoa da ETE foi derramada.

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    De acordo com uma nota técnica do Departamento de Botânica da UFSC, os efluentes derivados do tratamento do esgoto doméstico apresentam elevada concentração nutrientes inorgânicos dissolvidos (especialmente compostos nitrogenados e fósforo), bem como residuais de matéria orgânica, além de outros componentes potencialmente nocivos não decompostos pelo processo de tratamento, como metais pesados,
    fármacos, compostos orgânicos recalcitrantes, microplásticos.

    O documento também afirma que quando efluentes tratados são retidos em lagoas de evaporação ou infiltração, ocorre um processo intenso de trofia, que é a conversão de nutrientes inorgânicos em material biológico por ação da fotossíntese de algas e plantas aquáticas. Esse processo incrementa a carga orgânica e, consequentemente, a sedimentação de materiais. O esgoto tratado reservado na lagoa da Casan em questão se enquadra nessas características, afirma a nota técnica. Quando esse líquido todo é despejado de uma só vez em outro reservatório – no caso, a Lagoa da Conceição – isso “representa uma entrada altamente impactante de compostos químicos”.

    O documento da universidade – assinado pelos laboratórios e projetos Ecoando sustentabilidade, Lafic, Loqui, Nemar e Veleiro Eco – também afirma que a própria Casan já tinha preocupações com a disposição final da água que saía da ETE desde 2017, pelo menos, e que um evento como esse alerta para a necessidade de uma gestão eficiente da bacia hidrográfica da Lagoa da Conceição. “Intensificação de eventos extremos como os observados na última semana podem tornar o referido ambiente e comunidade ainda mais vulneráveis”.

    Análises vão mostrar a mudança na água

    Em visita ao local ainda em 25 de janeiro, dia do rompimento da lagoa, membros dos laboratórios da UFSC participantes do projeto Ecoando Sustentabilidade coletaram amostras de água e irão apresentar um resultado sobre a mudança na água da lagoa.

    Nesta quarta-feira (27) o Instituto do Meio Ambiente (IMA) de Santa Catarina pretende divulgar o resultado da análise da água da Lagoa da Conceição. Como o IMA faz semanalmente análise de balneabilidade no local, o resultado dessa semana deverá mostrar qual o impacto na água da lagoa.

    Impacto nos moradores

    Além da fauna marinha afetada na Lagoa da Conceição, um levantamento da prefeitura de Florianópolis afirmou que a enxurrada provocada pelo rompimento da lagoa de evapoinfiltração atingiu 35 casas e afetou diretamente 66 pessoas. Alguns desses moradores divulgam vídeos de suas residências mostrando os estragos e também afirmando que há um mau-cheiro impregnado após a passagem da água suja. A Casan promete ressarcir todos os afetados. Já a Polícia Civil instaurou inquérito para apurar todas as circunstâncias do rompimento da lagoa artificial e determinar os danos sociais e ambientais envolvidos.

    Por Lucas Cervenka – reportagem@correiosc.com.br

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