O avanço da obrigatoriedade do ensino de Computação nas escolas brasileiras impulsionou uma nova iniciativa na área da educação. Nesta segunda-feira (01/06), o professor e pesquisador André Raabe, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), lançou um e-book gratuito com orientações práticas para levar a Computação às salas de aula sem exigir laboratórios caros, excesso de telas ou a criação de uma disciplina exclusiva.
Nesse contexto, a proposta surge a partir de uma questão central: por que a sociedade convive com tecnologias presentes em quase tudo, mas ainda entende tão pouco sobre como elas funcionam?
“Vivemos cercados de tecnologias chamadas inteligentes, mas pouco questionamos isso porque fomos educados para consumir tecnologia, não para entender como ela é construída”, afirma Raabe.
Proposta conecta Computação às disciplinas escolares
O e-book apresenta um referencial curricular construído a partir de uma pesquisa em parceria com a rede municipal de Balneário Camboriú. A partir disso, o material organiza propostas pedagógicas para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental.
Além disso, o conteúdo integra a Computação a disciplinas já existentes, como Matemática, Ciências, Língua Portuguesa e História. Dessa forma, as escolas aplicam projetos transversais que, ao mesmo tempo, fortalecem lógica, criatividade, resolução de problemas e pensamento digital no cotidiano escolar.
Metodologia leva Computação para além das telas
Grande parte das atividades aposta na computação desplugada. Essa abordagem ensina conceitos de programação e lógica sem depender de computadores nas etapas iniciais do aprendizado.
Assim, as crianças participam de dinâmicas em grupo, criam comandos, organizam sequências e resolvem desafios. Em paralelo, utilizam o próprio corpo para compreender conceitos como algoritmo e raciocínio lógico.
“Existe uma diferença entre saber usar um aplicativo e entender a lógica que existe por trás dele. Quando a criança aprende a criar tecnologia, ela desenvolve visão crítica sobre algoritmos, redes sociais e sobre as escolhas tecnológicas do cotidiano”, explica Raabe.
Por outro lado, o professor chama atenção para as dificuldades enfrentadas por redes públicas na implementação da norma nacional de Computação na Educação.
“A norma foi construída em um nível muito alto para quem ainda está começando. Muitas escolas não têm estrutura, não têm formação específica e acabam tentando implementar tudo no improviso”, diz.
O projeto disponibiliza um repositório online com materiais de apoio para professores. Esses conteúdos se organizam por faixa etária e trazem sugestões práticas para aplicação direta em sala de aula.
O trabalho envolve ainda os doutorandos Elizabeth Cavalcante, Jackson Silvano e Alexandre Simon, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Univali.
Educação digital e pensamento crítico
De acordo com Raabe, o ensino de Computação precisa ir além da formação técnica. Em vez disso, deve fortalecer a compreensão crítica sobre o mundo digital.
Nesse sentido, ele reforça que o objetivo não é estimular o uso excessivo de telas nem a memorização de comandos.
“O objetivo não é fazer crianças decorarem comandos ou passarem mais tempo em frente à tela. Pelo contrário, é ajudar elas a entenderem como a tecnologia interfere na vida, no consumo de informação, nos algoritmos das redes sociais e nas decisões do cotidiano”, afirma.
Ainda assim, o pesquisador critica a falta de continuidade em projetos tecnológicos implantados nas escolas.
“Muitas vezes, soluções prontas entram nas escolas sem criar autonomia para a rede. No entanto, quando o professor participa da construção, o conhecimento permanece”, destaca.
Norma orienta implementação da Computação
A Norma sobre Computação na Educação Básica foi homologada pelo Ministério da Educação em 2022 e complementa a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Assim, o documento estabelece direitos de aprendizagem ligados ao pensamento computacional, ao mundo digital e à cultura digital desde a Educação Infantil até o Ensino Médio.
Em março deste ano, a Comissão Intergovernamental de Financiamento para a Educação Básica definiu que as redes que não iniciarem a implementação da norma em 2026 poderão sofrer redução nos repasses a partir de 2027.
Na Educação Infantil, o eixo central se chama “Brincando de programar”. Já nos anos iniciais do Ensino Fundamental, surgem propostas como “Eu e a computação” e “A lógica e o lúdico”.
Cada atividade, por sua vez, traz orientações detalhadas para professores, com objetivos pedagógicos, materiais necessários e relação direta com as habilidades previstas na BNCC.
O material utiliza o Referencial Transversal de Computação (RTC), criado para apoiar escolas na implementação do ensino de Computação sem a necessidade imediata de uma nova disciplina.
O e-book está disponível gratuitamente no site da Triálogo Editora.










