Na tarde desta sexta-feira (15/05), em Porto União, no Planalto Norte catarinense, o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC) aposentou dois cães de busca ao mesmo tempo. Iron, labrador com mais de 10 anos, e Léia, sua filha de quase 8 anos, encerraram a carreira em um ato simbólico durante a cerimônia de passagem de comando da OBM de Porto União.
Além disso, o momento marcou o fim de uma trajetória conjunta rara dentro da corporação. Ao mesmo tempo, também fechou um ciclo iniciado em 2003, com o cão Brasil, referência histórica do CBMSC.
Cães bombeiros em Santa Catarina
Iron é filho de Brasil, que foi o primeiro cão de busca certificado internacionalmente pelo CBMSC e que morreu em 2020. Por sua vez, Léia é neta dessa mesma linhagem.
Dessa forma, são três gerações atuando na corporação catarinense. Inclusive, dois deles se aposentaram juntos no mesmo ato.
Além disso, Brasil deixou um legado direto na formação dos cães operacionais. A partir dele, a genética e o treinamento da corporação evoluíram e passaram a ser referência.
Histórico inclui Brumadinho e mais de 70 ocorrências
O currículo de Iron começou em Xanxerê, no Oeste catarinense. Inicialmente, ele atuou por oito anos ao lado do cabo Josclei Tracz. Depois, seguiu com o condutor para Porto União, onde encerrou a carreira.
Ao longo de mais de uma década, o binômio participou de mais de 70 ocorrências, além de sete certificações e três missões nacionais. Entre elas, o destaque foi Brumadinho, em 2019.
“Brumadinho, fomos na primeira equipe, descansamos e depois partimos de novo. Depois teve Petrópolis, Rio Grande do Sul, Presidente Getúlio”, relatou o cabo Josclei Tracz.
Durante a operação em Minas Gerais, Iron precisou de cirurgia após um ferimento na pata. Mesmo assim, retornou à missão dez dias depois e seguiu em atividade.
Além disso, a atuação do cão também foi decisiva em buscas terrestres.
“Busca terrestre é o nosso maior serviço. Principalmente pessoas que se perdem pela mata. Agora nesse inverno, é comum pessoas mais velhas saírem, por exemplo, para colher pinhão e se perder na mata”, explicou Josclei.
Em 2020 Iron localizou um idoso de 86 anos desaparecido havia mais de 24 horas em Xanxerê. Já em 2023, ele atuou em Luzerna e encontrou um homem em área de mata fechada após três dias de buscas.

Léia, a filha de Iron, também atuou em grandes operações
Léia, com cerca de 7 anos e meio, seguiu os passos do pai. Assim, foi treinada pelo cabo David Canever e atuou em diferentes regiões de Santa Catarina, além de missões nacionais.
Em 2022, inclusive, participou da força-tarefa enviada ao Rio de Janeiro após as chuvas em Petrópolis.
“Ficamos 10 dias ali na região do Morro da Oficina, onde teve o deslizamento que levou ao soterramento de mais de 50 casas, com múltiplas vítimas. Trabalhamos muito ali”, afirmou o cabo David Canever.
Ao longo da carreira, Léia participou de pelo menos 18 buscas oficiais no Planalto Norte. Nesse contexto, se destacam áreas de mata fechada em regiões como Rio Negrinho, São Bento do Sul e Campo Alegre.

Vínculo entre bombeiros e cães
No CBMSC, os cães não vivem em canis. Pelo contrário, eles moram com os condutores e fazem parte da rotina das famílias.
“A gente tem todo o apego, né. É um vínculo muito forte. Eu ia na casa do sargento Moisés em Xanxerê, onde tinha uma ninhada de filhotes. Ia duas vezes por semana. Escolhi, peguei, levei pra casa, fiz o treinamento, passei nas provas de certificação com ele”, disse Josclei.
Além disso, o modelo catarinense se baseia em convivência diária e reforço positivo no treinamento.
Segundo Canever, essa relação também marcou a atuação de Léia.
“Hoje, a Léia está comigo, na minha casa, com a certeza que ela deu o melhor por Santa Catarina, sabe? É merecido esse descanso”, afirmou.
A linhagem do cão Brasil e o legado no CBMSC
Brasil, o patriarca da linhagem, morreu em 2020 aos 16 anos. Ele foi o primeiro labrador do CBMSC com certificação internacional para buscas.
Além disso, sua atuação foi decisiva em operações como as enchentes de 2008 no Vale do Itajaí, quando ajudou a localizar 23 vítimas.
Ao longo da carreira, somou mais de 100 buscas e abriu caminho para a formação da atual estrutura de cães de busca da corporação.
Iron e Léia representam essa continuidade. Dessa forma, uma linhagem que atravessa gerações consolida um dos principais programas de busca e resgate do país.












